Lisiane Lemos: Transformando e conectando pessoas

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Lisiane Lemos
Lisiane Lemos

Especialista em transformação digital, Forbes Under 30 em 2017, co-fundadora do programa Conselheira 101, palestrante, LinkedIn Top Voice, a lista de atributos e o currículo de Lisiane Lemos mostram de cara porque ela é uma rockstar do mundo corporativo.

Uma pessoa muito família, em suas palavras, Lisiane Lemos é também muito descontraída e, ao mesmo tempo, convicta e confiante do seu propósito profissional. Ela defende que sua maior força é levar alegria para os ambientes, mesmo em cenários extremamente complexos, equilibrando com a seriedade necessária.

Atualmente uma figura pública, Secretária Extraordinária de Inclusão Digital e Apoio às Políticas de Equidade do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, é muito mais do que mostra em seu LinkedIn. Sempre gostou muito de estudar e, por ter sido leitora desde muito cedo, não criou interesse por filmes e séries. 

Uma profissional que aprendeu a nunca dizer nunca e que se percebeu muito feliz e reconhecida ao exercer atividades profissionais que falou inicialmente que “nunca faria” durante a carreira. E ela também lança uma provocação importante: “Se a oportunidade da tua vida chegar agora, você vai estar pronto? Seu currículo está pronto para a vaga dos teus sonhos?.”

Você é Linkedin Top Voice e está entre as jovens mais influentes no Brasil abaixo dos 30 anos, conforme a revista Forbes. Como você avalia que chegou nesse patamar?

O Linkedin Top Voice foi o único título que realmente persegui e que eu realmente queria. Mas outros reconhecimentos, como o da Forbes e o MIPAD (Most Influential People of Africa Descent), por exemplo, foram coisas muito inesperadas. Eu brincava que eu sempre achava que era trote quando me ligavam. 

Tanto na vida quanto na carreira, a gente vai construindo as coisas em blocos e acho que tudo depende da base. Eu tive uma fase muito focada em educação e direitos humanos, que foi onde comecei os meus estudos desde a faculdade. Eu venho de educadoras muito conectadas com a questão da inclusão no ambiente escolar. E um ponto de virada para mim foi me envolver com voluntariado. Porque isso me trouxe experiências que uma carreira CLT não me traria, além de me dar bagagem para fazer transições. 

A primeira experiência que tive foi em uma organização de jovens chamada AIESEC, que trabalha com experiências de lideranças em projetos internacionais. Eu tinha contato com intercambistas, comecei como voluntária e terminei como diretora na organização. Dentro desse programa de jovens, apresentações de estágios, eu descobri que tinha uma veia para ser executiva de vendas e que era aquilo que eu queria fazer. Foi aí que comecei a me preocupar com o networking e pensar “como eu faço para que essas pessoas notem que eu existo, morando em uma cidade de 400 mil habitantes?”. 

Realizadas as conexões, virei coordenadora de contas de uma das empresas que eu queria trabalhar, eu comecei a ir atrás de outro sonho que era morar no continente africano. Quando terminei a faculdade de Direito, passei na OAB, eu fui morar em Moçambique, fui ser diretora desta mesma organização lá. Eu tinha uma vida toda planejada, até que um dia caí em um bueiro da rua enquanto mexia no telefone, quase perdi minha perna e isso me trouxe de volta para o Brasil.

Já de volta ao país, recém formada, passei no trainee da Microsoft e fiquei lá por seis anos. Depois fui convidada para ser Gerente de Aquisições do Google e no final do ano passado eu mudei para o setor público, que era algo que eu nunca tinha pensado. Se eu fosse resumir, o primeiro ponto é que a gente sempre ofereça o nosso conhecimento para o mundo. Sempre tem algo que a gente sabe que a outra pessoa não sabe.

O que eu faço muito com o LinkedIn é uma espécie de livro do desabafo, com coisas que aprendi do jeito mais difícil sobre carreira e gostaria que alguém tivesse me ensinado. Por isso, a questão do reconhecimento foi com certeza uma consequência. Quando as pessoas perguntam para mim “O que eu faço para sair na Forbes?”, eu pergunto “Qual projeto e quantas vidas você está mudando?”. Porque a minha trajetória foi sempre assim, primeiro eu quero transformar o mundo corporativo para ele parecer mais com o lado de fora. Para ter mais mulheres, mais jovens, mais pessoas negras em espaços de liderança e conseguir mobilizar as pessoas para fazer isso.

O reconhecimento não pode ser um fim em si mesmo, mas funciona como combustível. E como fiz para chegar até aqui? Sempre fui muito ligada ao propósito de transformar e conectar pessoas.

Você tem no currículo experiências em empresas gigantes como Google e Microsoft. Quais os principais aprendizados que você tirou desses lugares?

Eu nunca sonhei em trabalhar nesses dois lugares, porque era algo muito distante da minha realidade. Se você olhar as fotos das equipes, isso em 2013 quando virei trainee, não tinha ninguém parecido comigo. Para mim não era, mas hoje eu trabalho para que seja o sonho de outras pessoas. Para que elas realmente sonhem e conquistem esses espaços.

Quando comecei na Microsoft, entendi que o primeiro ponto é: aprenda inglês. Não adianta ter um currículo incrível, cheio de cursos e experiências, se não souber inglês avançado. Não precisa ser fluente, mas tem que conseguir se comunicar. Inglês é um requisito em toda empresa de tecnologia.

Mas o principal ensinamento com certeza foi que a carreira é minha e não do meu gerente. Eu preciso estar pronta para a oportunidade quando ela chegar. Meu currículo precisa estar sempre atualizado e em várias versões, para cada um dos cargos que eu quero. Não é a nossa competência nem nosso trabalho que vão fazer as oportunidades nos encontrarem. E, principalmente para as minorias, é muito difícil se vender. A gente acha que é arrogância, mas, no momento em que você se posiciona, você inspira outras pessoas para estarem naquele lugar e você mostra que pessoas como você podem sentar nessa cadeira. 

Um terceiro aprendizado é a relação do trabalho com o cuidado da saúde mental. Tive um burnout quando tinha 25 anos, foi um ano super estressante, eu não comi bem, não dormi bem, não fiquei com as pessoas que eu amo. Um belo dia acordei com muita dor, achei que ia morrer, fiquei 4 dias internada a base de corticoide, tentaram descobrir o que era e era enxaqueca por estresse. Fiquei 15 dias afastada por burnout. Desde esse momento, virei uma grande militante de saúde mental, porque não há como ser um bom executivo sem se cuidar e sem fazer terapia.

Como foi a decisão de sair do Google para trabalhar no governo do Estado? Qual foi a sua principal motivação?

Essa retomada foi acidental. Eu gosto muito de festa, carnaval, futebol, churrasco, me conquista fácil. Meu pai fez 60 anos, a gente tinha passado por um momento super difícil e eu dei uma festa para ele. Mas com uma condição: tinha que ser no único dia do mês que eu poderia estar em Pelotas. Coincidentemente esse dia foi 13 de março de 2020.

Eu vim de Belo Horizonte, fui para Pelotas, fiz a festa, aproveitei e no domingo começaram as notícias do lockdown, eu tinha uma viagem para Vegas marcada, desmarcou tudo, foram as 48 horas mais longas da minha vida, porque estou aqui até hoje. Fiquei trabalhando a distância, atendendo a América Latina e aproveitando os benefícios do trabalho remoto, cada mês trabalhando de um lugar. Até o fatídico dezembro de 2022, quando recebi um WhatsApp: “Oi, Lisiane, aqui é o Eduardo Leite, quero conversar contigo.”, pensei que era golpe. Antes, liguei para alguns amigos em comum para saber se era ele mesmo.

Cada governador pode criar uma secretaria nova, durante os quatro anos. E eu acho o Eduardo um cara muito visionário. Quando ele começou a falar sobre esse projeto, conversamos sobre equidade e inclusão digital. Eu já estava em uma fase do Google em que eu já tinha entregue tudo o que eu tinha para entregar, estava feliz, com uma chefe legal, pensando em pedir demissão para ir morar nos EUA por um tempo. E aí tudo mudou. Construímos essa ideia juntos. Ser uma das primeiras secretárias pretas no Rio Grande do Sul, em uma pasta de tecnologia e considerando que cresci aqui e minha família está aqui, eu falo que é representativo por si só.

Você considera que o acesso à tecnologia é um teto de vidro no contexto da Diversidade, Equidade e Inclusão?

É um teto de vidro e cada vez mais. Muitas vezes a gente fica em uma bolha e não vê qual é a diferença das pessoas que não tem isso. Eu tenho estudado sobre conectividade em territórios quilombolas, aldeias indígenas, escolas de zona rural, e a gente vê que o que para mim é normal, ter uma internet boa que funcione e fazer cursos, para outras pessoas não é.

Eu passo o dia inteiro pensando em como vou incluir essas pessoas para que aumente a empregabilidade, para que possam trabalhar de qualquer lugar, para que empresas do eixo Rio-São Paulo vejam elas. É o dia inteiro pensando como ampliar esses acessos. Dentro dos desafios, o Rio Grande do Sul tem uma das populações mais longevas do Brasil. Nossa pirâmide etária é invertida. O que isso quer dizer? Que diferente de outros estados que majoritariamente investem na educação de base para que essas pessoas sejam digitais, o meu maior desafio é digitalizar quem já está no mercado e que às vezes tem baixa escolaridade. 

Os investimentos das pequenas, médias e grandes empresas em políticas de D&I aumentaram nos últimos anos. Qual o impacto disso e o que ainda precisamos trabalhar a nível macrossocial?

Os investimentos aumentaram, mas muito capitaneados por episódios específicos, como George Floyd. Tivemos uma crescente dentro do cenário de pandemia. O que tenho visto acontecer silenciosamente, principalmente nos últimos seis meses, tanto a nível de EUA quanto a nível Brasil, é um decréscimo. Nos layoffs, se formos prestar atenção, são essas minorias que estão sendo mais demitidas. Mães, pessoas pretas, jovens, que tem uma dificuldade maior de recolocação no mercado. Também tenho visto um grande número de demissões de diretoras de diversidade. Mas claro que são movimentos que só quem está dentro do mercado de RH sabe.

Na minha visão, mesmo em um cenário econômico desafiador, o desafio é não perder a atenção em quem estamos atingindo com os cortes. Isto é, fazer uma análise completa, com essa variável de diversidade junto para ver se aquele 1% que eu contratei na pandemia não está sendo dispensado agora. Aí o treinamento, todo dinheiro investido, não vai valer a pena. 

Qual é o seu legado rock?

Eu sou uma troublemaker e também uma problem solver. Em primeiro lugar, acho que a minha maior contribuição é que as pessoas veem através do exemplo que a gente pode não ter uma carreira só. Que a nossa graduação não define quem a gente é e o que a gente vai fazer da vida. 

E uma outra contribuição mais soft é o poder das conexões entre as pessoas. Eu me sinto muito feliz com o networking que pude fazer, portas que pude abrir. Minha equipe brinca que meu telefone é mágico, porque eu resolvo qualquer problema com ele.

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